Minha lista de blogs

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A SEXUALIZAÇÃO DAS CRIANÇAS - por Nicéas Romeo Zanchett


                 A tendência natural de toda a criança é seguir o exemplo dos pais. A sexualidade precoce delas é apenas uma consequência do desmoronamento de referências culturais que marcaram as últimas décadas. A sociedade perdeu as tradições e rituais de passagem da infância para a adolescência e,depois, para a idade adulta. 
                 Ha apenas algumas décadas as crianças tinham uma ligação maior com os pais. Eles eram o modelo de vida a ser seguido. Os pais ensinavam os comportamentos adequados e até trabalhar, mas hoje eles estão perdidos no que deve ou não deve proibir. Além disso, a criança contemporânea tem uma quantidade enorme de informações;  a internet é o veículo preferido para a educação e infelizmente os pais já não tem mais controle e isso é muito preocupante. Como serão as crianças que hoje estamos tentando educar? 
                 A cada dia que passa as crianças mais se afastam das antigas brincadeiras, tipicamente apropriadas para sua idade; brincava-se de cantigas de roda, de cabo de  guerra, de jogar vôlei, queimada, espiribol, futebol e muitos outros saudáveis e instrutivos esportes. 
                 Mesmo para jogar futebol que é a paixão dos brasileiros, está difícil, pois implica em ter um campo, um time adversário e muitas regras;  e isto já não funciona, porque as referências culturais acabaram. É assim que meninas e meninos, na faixa de 10 a 12 anos de idade, deixam de pensar em esportes para pensar só em sexo. Crianças nessa faixa etária naturalmente não tem maturidade biológica para a prática, mas vivem ansiosas para realizar a primeira experiência sexual. É bem verdade que não há uma idade oficialmente adequada para a iniciação sexual, mas a relação exige uma responsabilidade consigo mesmo e com o outro que evidentemente só é alcançada com a maturidade emocional.  

                O estímulo externo à sexualidade, leva a criança a viver situações que ainda não tem condições emocionais para enfrentar.  Um menino de 11 ou 12 anos está em estado de transição, os hormônios estão em ebulição; já pode ter ereções e até ejaculação, que é muito comum acontecer durante o sono.  Os meninos, por natureza, são mais fechados do que as meninas.  Por uma questão cultural, eles tem menos espaço para trazer suas dúvidas aos pais ou professores. Geralmente sentem-se envergonhados por não saber. Seja por vergonha ou medo, eles tem menos oportunidade de falar do que as meninas mais preparadas, por exemplo, para a primeira menstruação.  A angústia deles é muito preocupante. Porque, ao invés de brincar como crianças, deram este salto para a sexualidade genital, que não podem realizar.  Desejam algo que o corpo ainda não é capaz de satisfazer. 
                  Esses conflitos vão se manifestar em dificuldades escolares, problemas de conduta ou depressão. Na vida adulta, estas crianças viverão o sexo não como algo natural, mas invasivo, vindo de fora.  Poderão enfrentar problemas com a sexualidade, como a banalização, o uso do sexo para obter domínio ou poder sobre o outro, além das dificuldades orgásticas. 
                  É muito comum vermos jovens cultuando ostensivamente sua virilidade, vivendo apenas atrás de um pênis ou de um corpo malhado; outros , mais tímidos, poderão se assustar com essa invasão sexual. Estes últimos são garotos que vivem num enclausuramento emocional e físico, assustados com esta cisão que está acontecendo entre o afeto e a sexualidade. Isto é muito preocupante porque se está criando uma geração de homens frágeis, deprimidos e melancólicos, que não cumpriram as etapas do seu desenvolvimento. A pressão exercida sobre o menino que tem que provar sua identidade sexual indica privação afetiva. Precisa permanentemente satisfazer as expectativas alheias para sentir-se aceito no grupo e poder garantir um mínimo de auto-estima. No futuro seu prazer sexual pode ficar comprometido em função de uma atuação onde estará constantemente exibindo-se para os demais. 
                  A educação sexual está incluída nas disciplinas de ciência e biologia, mas de forma bem resumida e genérica. Não entra nas questões que realmente interessam, principalmente aos adolescentes. 
                  É muito natural que os adolescentes namorem, mas há uma diferença entre uma demonstração de afeto e gestos que fogem ao mínimo de convivência social. 
                  Pais e professores usam a imaginação para enfrentar este descompasso entre os estímulos precoces da sexualidade e a sua maturação biológica ainda insuficiente para satisfazer aos apelos da prática sexual. 
                  A sexualização precoce leva a uma aceleração da maturidade biológica. Já não é novidade se encontrar meninas menstruando aos 10 anos de idade.  Estudos recentes indicam que há um aumento considerável de meninas que menstruam nesta idade. E esta aceleração da maturação biológica pode também estar ocorrendo com os meninos. 
                   Com o advento da internet o diálogo dos pais e professores com os adolescentes, que já era difícil, se tornou quase impossível. Mas é importante que os pais e professores evitem esse padrão de erotização precoce imposto pela cultura, procurando estar bem informado e atento às perguntas e atitudes das crianças;  não devem nunca se omitirem à discussão de qualquer assunto sexual. Essa é a melhor forma de evitar que seu filho ou aluno aprenda errado na rua.  O melhor caminho para evitar conflitos da criança diante da sexualização precoce é a atenção e conversa franca.  Se a criança tiver este afeto irá adquirir confiança e viverá estes momentos com a ansiedade natural da idade.  Sem vinculo e cumplicidade, principalmente com os pais, a sexualidade se tornará um transtorno e acarretará problemas futuros. 
                   A educação sexual é polêmica nessa idade. Muitos psicanalistas dizem que, ao invés de orientar, as informações sobre sexo podem invadir a privacidade da criança e provocar efeitos nocivos, como a angústia, o medo de castigos por suas fantasias sexuais e até a negação da própria sexualidade. Mas hoje com a internet e outros meios de comunicação as crianças são diariamente bombardeadas com informações que nem sempre são orientadoras. Portanto, seja qual for a opinião divergente, é melhor informar e dar um rumo ao pensamento do confuso jovem. 
                   Se a criança está fixada em sexo, os pais devem procurar ajuda de um terapeuta para tentar devolvê-la aos prazeres naturais da infância. Um dos melhores caminhos é, sem dúvida, o incentivo a jogos e brincadeiras. É através do brincar que a criança aprende a se conhecer e a lidar com regrar e reverências para o convívio social na idade adulta. Nesse aspecto, é importante estimular o convívio com crianças da mesma idade. 
                   Até por imaturidade biológica, começar a vida sexual muito cedo é totalmente desaconselhável, mesmo para os meninos. Mas nada impede que a criança comece a investigar sua própria sexualidade com naturalidade, isto é sem pressões externas. 
                   O diálogo aberto e franco com os pais é o melhor caminho para que a criança comece a lidar com a sexualidade. Quando esse diálogo é difícil, ela atravessará esta faze com muita ansiedade e desamparo. Hoje com tantas doenças sexualmente transmissíveis rondando as crianças, o mínimo que podemos fazer é orientá-las sobre sexo seguro. 
Nicéas Romeo Zanchett